segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Bruno Bloch tem alguma razão

Eu tinha feito este texto pra entrar há quase um mês.
No começo do Festival do Rio... Lá pro dia 05.
Mas fiquei enrolado e esqueci de postar.
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Marcos Bernstein é roteirista de filmes como ‘Central do Brasil’, ‘Chico Xavier’, ‘Terra Estrangeira’ e ‘Zuzu Angel’. Ele também é roteirista e diretor de filmes como ‘O outro lado da rua’ e da nova versão de ‘Meu pé de laranja lima’, que assisti nesta segunda-feira, no Festival do Rio (vide post anterior). 



Não conhecia a história. Nunca li o livro, nunca vi nenhuma adaptação pra TV ou Cinema. O filme é bem dirigido, bem roteirizado e traz mais um ator-mirim digno de prêmio. Fui procurar referências anteriores e vi que foram feitas três novelas da história.

Há duas semanas, assisti a uma palestra com Bernstein na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Dentre as revelações de trajetória, o fato de estar hoje na TV e de ter escrito com Lícia Manzo a novela A Vida da Gente - que contou também com o talento da promissora Giovana Moraes (eu, um bajulador).

Bruno Bloch é amigo e também é roteirista.
Profundo conhecedor e defensor de séries televisivas, Bruno é do tipo que não gosta de telenovela. Embora a palestra citada acima comprove que, para viver de ficção no Brasil, o autor deve cogitar a possibilidade de escrever uma, não culpo o Bruno por isso. Escrever novela pode interessar pela mudança dos rumos pensados para a história, por poder surpreender o público, além de dar a certeza de que o seu trabalho está sendo visto em escala nacional. No entanto, existem coisas em novelas que são bem difíceis de fazer (e de engolir). Pelas limitações de produção e tempo, por mais genial que seja, o autor não consegue fugir de certas armadilhas... E pra quem está do outro lado da rua, ‘a armadilha é certeira’.

Vamos listar alguns destes incômodos ‘novelísticos’, pra ver o que sai:
1- Os trocadilhos e frases feitas são usados com exaustão (máxima Blochniana). Sempre tem um “Você me paga”, um “Ah, você não me conhece...” ou um “Eu vou acabar com a sua raça”.  Além, é claro, daquelas frases de pára-choque de caminhão.

2 – Falas explicativas – Quando não se pode mostrar o passado ou o que ainda está por vir, um personagem terá que explicar. Isso é limitador, mas não chega a ser o pior. O pior é quando a coisa foi ou será mostrada, mas, mesmo assim, o personagem explica. É o mutante da novela dizendo para a vítima como e por que vai acabar com a raça da vítima segundos antes de efetivamente acabar com a raça da vítima.

3 - Falas explicativas de apresentação de personagem – Um pouco mais específico. Um personagem entra para falar do passado ou das características de um segundo personagem. Geralmente, o primeiro fala com um terceiro que, pela relação interpessoal, já está (ou deveria estar) careca de saber como é ou o que aconteceu com o personagem em questão. Mesmo assim, a conversa segue, porque o espectador precisa saber.

4 – Falar o que se sente - Não basta a atuação ou a ação. Não basta já termos entendido tudo por uma determinada atitude. O personagem tem que dizer o que está sentindo e o que a levou àquele sentimento... E o quanto é difícil sentir aquilo tudo.

5 – Falar o que se pensa - O personagem está sozinho, aflito e fala pra si... (Tem que dar o recado pro espectador!) E faz uma expressão de angústia ou preocupação.
Esta nos leva para: 5b - Deixa do que vai acontecer – O personagem está aflito e fala alto, pra si. Mas não é um pensamento qualquer. É uma pergunta! “Será que ele vai conseguir as provas?”. E isso não é apenas insegurança do personagem. Isso é a deixa dos próximos capítulos... Atenção, aí vem a corrida pelas provas. E de duas, uma: ou o “ele” vai conseguir as provas sozinho ou a própria pessoa que faz a pergunta será fundamental para que o “ele“ consiga as provas.

6 – Soluções rápidas para um problema - O autor tem que seguir com a história. Um conflito tem que surgir, mas tem que ser solucionado. Não há tempo. Vamos com a mais fácil ou a mais extraordinária. Assim, fotos impressas são perdidas ou destruídas em pleno século XXI (valeu pela dica, João!), cartas reveladoras surgem do nada ou a cidade é vítima de terremoto para diminuir o elenco. E o Juca de Oliveira, o Denis Carvalho, o Jorge Fernando ou qualquer diretor ou ator consagrado pode também aparecer do nada pra trazer uma informação nova ou dar um final feliz pra alguém.

7 - Jargão de personagem cai na boca do povo – Não é brinquedo não! Pode ser uma frase simples, uma palavra, uma grande tirada ou uma frase que se salvou de ser ruim porque foi dita de forma diferente pelo ator. Não importa... O que importa é que sempre vai aparecer quando o personagem não tiver nada melhor pra dizer. E vai ser repetida até depois de depois de encher o saco...

8 – Estereótipos e clichês – Estão nos traços característicos do personagem e nos conflitos. Esses são de praxe. O espectador já espera por eles. Novela não é novela sem eles. São os gêmeos que vão trocar de identidade (e se apaixonar pela mesma pessoa); o casal que não pode ficar junto por diferença social; o Romeu e Julieta – com famílias rivais; o irmão mal do irmão bom; o velho que parece mal, mas no fundo é bom; a empregada engraçada; a suburbana sonhadora; o rico que não quer perder ou quer recuperar a fortuna; aquele que volta para se vingar (um clássico dos dias de hoje); etc. Esses são mesmo de praxe. Só coloquei pra lista ficar com dez itens.

9 – Os núcleos – Toda novela tem que ter núcleo. E toda novela tem que ter um núcleo rico, um núcleo pobre e um núcleo cômico, que pode ser um dos outros dois. Assim, aprendemos que na vida os ricos sempre encontram com os pobres. Ricos sempre se apaixonam por pobres. Ricos sempre moram em casarão com escadaria. (Mesmo quando é ‘apartamentão’, tem que ter uma escada.) Por outro lado, novela é drama e tem que ter alguma coisa pra aliviar a tensão. Tem que ter uma graça, que pode vir do núcleo pobre ou do rico. Mas não confundam... Se o patrão é engraçado, o empregado também é. Porque ali é o núcleo. O empregado é pobre, mas faz parte do núcleo rico e engraçado... Assim como na vida.

10 – O final feliz – Com raras exceções, de uma forma ou de outra, vamos ver um vilão se ferrar. Não precisa ser todo vilão. Só o menos carismático... Ou o mais vilanesco. Já o/a protagonista tem que se dar bem. Ele pode perder alguma coisa, mas tem que ser só um pouco. No mais, ele tem que terminar bem emocional e financeiramente (e de saúde). E mesmo que ele não case ou tenha filhos no final, alguém na novela tem que casar e ter filhos. Pode ser aquela amiga gente boa que ajudou a protagonista ou mesmo o irmão engraçado da protagonista. Ou pode ser a amiga gente boa com o irmão engraçado da protagonista (olha, quem diria... Logo eles que brigaram a novela toda!). Porque é isso que muitos esperam da vida. Ou o que muitos esperam que a gente espere: Sucesso, companhia e continuidade. Isto é, um sentido de realização. Sem considerar que negócios podem falir, relações podem esvaziar e filhos podem desvirtuar.

Eh... Não sei. Mas até que o Bruno Bloch tem alguma razão.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

E nem precisa ser rabugento...

Moro em Botafogo e, hoje, fui ao cinema em Copa.
Logo ali do lado.
Dez minutos e cheguei lá.

Saí do cinema às 23h15. Estava a pé e precisava de ônibus. Como não era a primeira vez, fiquei atento, mas logo na saída vi o 434 passando ao longe. Corri. Não consegui chegar nem perto, porque - para o bem da população - agora o ônibus não pára mais em qualquer ponto. Andei até a Figueiredo Magalhães. Nenhum ônibus passou nesse meio tempo. Fui para outro ponto. Parei. Esperei mais 15, 20 minutos. E eu só precisava atravessar o túnel... Ia pegar um táxi quando vejo outro 434 vindo ao longe. Dei sorte. (Já passei por isso em Copacabana algumas vezes... E, na maioria, esperei mais e acabei pegando o táxi).

Ao subir no ônibus, quando já estava na roleta, ouvi um homem perguntar ao motorista:  - Esse ônibus vai pela São João Batista? O motorista disse que não. O homem ficou, o ônibus avançou e não deu nem tempo de avisar ao homem que, a essa hora, nenhum ônibus passa pela São João Batista.
(Sendo que quatro ou mais linhas costumam passar pela São João Batista.)

Isso não é mera crônica. Isso é realidade
Isso é o Rio de Janeiro de quem não costuma andar de carro.
Isso é um sistema de transporte que caga na cabeça do passageiro.

E antes que eleitores se voltem contra ou fiquem a favor...
Isso não é campanha política.
Isso é saturação.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A quem fica... (Tempo, não me deixe ser Lolita)

O fim de semana foi marcado pelo adeus a Hebe Camargo.

Fiquei sabendo da notícia meio tarde. Porque pra mim o fim de semana foi marcado por filmes e vídeos. Alienado da vida real, só me inteirei do fato na noite de sábado, ao ver uma reprise de uma antiga - bem antiga - entrevista no Roda Viva.

Alguma coisa estava errada...
Por que exibiam uma entrevista com o Paulo Francis rosado e gordo?
Por que exibiam uma entrevista com o Otávio Mesquita com pequenos indícios de cabelos brancos?
A Hebe apareceu ao centro e a ficha caiu.

No resto do fim de semana, acompanhei as notícias pelos sites.
Selinho de Sílvio Santos, choro da família, Paulo Maluf na primeira fila do velório.
Nada realmente mexeu comigo.
Nada, a não ser uma imagem.

Hebe Camargo fundou a TV brasileira.
Estava lá com Lima Duarte e Chatô (o homem, não o filme inacabado) quando tocaram o hino da TV.
Deixando de lado as ressalvas de muitos em relação à apresentadora (e relevando também a adoração desmedida de outros muitos), ela teve sua importância. Mas esta não pesou com a notícia. Na verdade, o único peso veio com a imagem da despedida emocionada de Lolita Rodrigues.

Todos já devem ter visto a famosa entrevista de Hebe, Lolita e Nair Belo no Programa do Jô (A quem não viu, acabo de saber que será reexibida hoje). É um clássico, pela descontração, pelas memórias e pela demonstração de amizade das três. Até aquele momento, não havia qualquer ponto de interseção entre as três em meu imaginário. Depois dele, não consegui mais pensar em uma sem lembrar das demais. E sem lembrar das famigeradas histórias de risos em velórios


O velório de Hebe deixa Lolita sozinha em meu imaginário.
Agora, só resta ela pra contar histórias.
E deve ser difícil ficar.

Lembrei novamente do Paulo Francis. Dos cabelos brancos e do rosto enrugado de Otávio Mesquita. Da idade em cada um que foi ao velório. Busquei o vídeo do Roda Viva na internet (porque, no fundo, mudei de canal e não dei atenção). Achei uma entrevista com Dercy Gonçalves e outra com Chico Anysio. De lá, os links me levaram para antigos quadros de humor. Quantos já morreram.

Viver é perder(-se em) referências. 

E fiquei imaginando os grupos de amigos.
Aqueles amigos com quem formamos grupos.
Aqueles grupos (ou sub-grupos) de amigos que vemos de fora, mas não pensamos em entrar. Apenas admiramos. E pensei em como se sentirá a Lolita de cada um desses grupos.
Para quem vai reclamar sobre o reumatismo ou a perda de audição?
Com quem vai dar risadas sobre a piada do último velório?
E lembrar de festas, pessoas e sentimentos passados?
Por mais que venham netos, filhos e amigos mais novos, não é a mesma coisa. Não é o mesmo elo.

Nessa hora, a gente não se preocupa em ser egoísta e dizer:
Tempo, tempo, mano velho...
Não precisa ser cedo. Não preciso ser o primeiro.
Mas, por favor, não me deixe por último.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

As músicas que nos perseguem

Há músicas que só foram feitas para nos perseguir.
Elas não estão ao alcance de qualquer um.
Elas surgem.
Não foram feitas para o carro, o som, o barzinho, o chuveiro ou a pista de dança.
Foram feitas para o inesperado.

As músicas que nos perseguem não são aquelas que grudam.
Aquelas são mais fáceis de tirar de nossas vidas.
Basta encontrar outra.
As músicas que nos perseguem estão em nossas vidas.
Na verdade, elas nunca saem.

Voltam como um soluço.
Sem avisar.
Quando menos se espera, elas estão ali.

São músicas que nos agradam.
E que revelam um pouco de nós.
É como se fossem de nossa autoria.
Estão em nossa alma e carregam um pouco dela.

As músicas que nos perseguem somos nós.
Perdidos pelas ruas.
No caminho daquele que vai desatento.
Na companhia daquele que espera pelo ônibus.
Ou daquele que está impaciente a espera de alguém.

As músicas que nos perseguem estão soltas.
E, de certo, elas não nos perseguem.
Nós é que as perseguimos.



Entre estas músicas que me perseguem estão músicas antigas, anteriores a mim.
Músicas que surgiram comigo.
Músicas que vieram muito depois.
Músicas de artistas conhecidos ou desconhecidos.
Músicas de amigos.
De diferentes estilos.
E as sacras.
Aquelas que ouvia na Igreja.

Entre as últimas, trago uma que há muito não ouço por aí.
Mas que sempre toca aqui.
A me perseguir...

Ela é simples.
Até infantil.
Mas sempre me acompanhou.
E acho que vou sempre persegui-la.

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Estrelas

As estrelas que você
Guarda no fundo do olhar
Só mostre para quem também

Brilha estrelas no olhar
Por entre noites de luar
Azul da cor da paz, do bem

Uma estrela lá no céu
Traçou uma reta para o mar
E o meu pedido fiz a Deus, pedi

Muito mais estrelas lá no céu
E muito mais no coração
De minha irmã, de meu irmão

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Reflexão miscelânica

Caetano Veloso é conhecido em Portugal.
Mas quantos brasileiros conhecem Rui Veloso?
Se perguntar o nome de um ator português que não atue em uma novela da Globo, alguém vai saber?
E argentino? E uruguaio? E angolano?
Brasileiro só ouve kuduro porque está na abertura da novela. E, mesmo assim, um kuduro que veio de um sucesso comercial portorriquenho. Um jabá.

Tenho uma nova página no Facebook, o Miscelânea Rabugenta (propaganda gratuita), que tem por meta divulgar e refletir sobre novos artistas, músicas antigas, diferentes ritmos, culturas ou músicas simplesmente divertidas. Hoje, ao voltar a uma música angolana, me deparei novamente com a reflexão (rasa) sobre o imperialismo cultural.

Todo mundo sabe, debate, reclama, se opõe ao imperialismo cultural americano.
É sabido que o mundo vive há anos uma idolatria da cultura americana. Ou, da cultura de língua inglesa, numa maneira mais abrangente.

Não gosto de levantar bandeiras... Não quero impor gostos ou dizer o que está certo ou errado.
E não acredito que seja apenas por educação que a pessoa goste de rock, em detrimento ao fado, ao tango ou mesmo ao samba. Mas não deixo de ficar incomodado quando esbarro no desinteresse alheio. Quando, mesmo sem conhecer ou saber do que se trata, alguém diz que não quer ouvir determinada música, ver um filme, ler um livro ou conhecer qualquer traço de determinada cultura. É o mesmo que dizer que não se gosta do doce sem nunca ter experimentado (eu sou meio chato pra comida e entendo que o sentimento para quem oferece deve ser o mesmo).

Independente da questão (que não fica apenas no âmbito cultural), o incômodo rabugento de hoje passa pelo risco de nos tornarmos americanos. Sempre tive fascínio pela cultura brasileira e a propago com afinco. Gosto de ver um gringo fascinado com um sambinha, um chorinho, dançando um forró desajeitado, comendo uma carne seca ou falando um bom Tupiniquim. Mas sei também que há de se ter cuidado. Não podemos esquecer do intercâmbio. E não podemos nos furtar do interesse pelo que vem de fora.


Não sabemos nada sobre nossos vizinhos.
Os cômodos vão rebater e dizer que o Brasil é que é excluído do resto da América Latina, por enfrentar a "barreira da língua". Mas o que sabemos dos países que falam português?
Não sabemos nada, não queremos saber. Mas queremos nossa brasilidade pelo mundo... Queremos Gisele nas passarelas, queremos as Havaianas e os biquinis nas praias de Ibiza e queremos ver filmes americanos dirigidos por brasileiros. Queremos a afirmação. E embora todo intelectual critique e sinta-se envergonhado de ser representado internacionalmente por um folhetim, todos dão uma olhadinha na TV quando estão fora do país, pra ver se não tem uma novelinha no ar. No fundo, gostam de se sentir 'em casa'.

Que novelas, filmes, músicas, livros, obras de arte, artistas, comidas, técnicos, esportistas e hábitos sejam exportados. Sou o primeiro a querer vê-los difundidos pelo mundo. Mas que o mundo - que não está apenas na "América" ou em ilhas britânicas -  também chegue ao Brasil. Que o Brasil esteja aberto para o grupo de soul português, para a cantora tradicional de Cabo Verde, para o semba de Angola, o cantor pop maluco da Coreia e o cinema premiado da Argentina. Que a miscelânea cultural possa abrir a cabeça dos brasileiros e que o mundo possa entender melhor o Brasil. E que as lágrimas de nosso orgulho exacerbado não embaçem nosso olhar... Como acontece por aí.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

31 coisas para se fazer no Rio...

31 coisas para se fazer no Rio de Janeiro...
Quando você é realista, não tem dinheiro, não é turista ou não pertence ao mainstream:

1 - Passear pelo engarrafamento do Jardim Botânico;
2 - Ver asas-delta saltando da Pedra Bonita e dizer pra si que um dia você vai ter coragem;
3 - Tomar uns chopes no botecão de qualquer Luiz;
4 - Comer queijo coalho na Feira de São Cristóvão (tendo plena certeza de que bom mesmo era antigamente, quando você não precisava pagar pra entrar - afinal, um real já complementa na conta);
5 - Levar uma criança na porta do Planetário (e deixá-la por lá);
6 - Beber cachaça em casa, na pré-night, com o dinheiro que economizou não indo pra Academia;
7 - Ver muitas pessoas no Jobi, enquanto come no Koni;
8 - Passar a tarde no Paço Imperial... Em dia de semana, enquanto prolonga a hora do almoço;
9 - Assistir a um Fla-Flu... no Engenhão;
10 - Não perder dinheiro comendo casquinha de siri no Rio e nem tempo indo pra Prainha (sim, é linda, mas é longe);
11 - Desenhar o Arpoador na tatoo feita em uma galeria qualquer de Copacabana;
12 - Comer biscoito Globo na Central e imaginar que está no Leblon;
13 - Pedalar com bicicleta do Itaú pela Lagoa;
14 - Sábado, esperando por mesa nA Cobal;
15 - Saber que existe o Real Gabinete;
16 - Passar pela porta do Cecília Meirelles naquela noitada da Lapa;
17 - Relaxar no trânsito da frente do Parque Lage;
18 - Achar muito brega quem tem um prato com foto no Pão-de-Açúcar;
19 - Olhar os hotéis e o Corcovado (no trânsito);
20 - Ir à fila de uma exposição do MAM (porque nessa tá todo mundo indo, então eu vou também);
21 - Ver o Mosteiro de São Bento (em fotos);
22 - Dar uma batida na porta do Osvaldo;
23 - Não saber que o Municipal abre aos domingos;
24 - Ver a cabeça gigante de Getúlio no Catete (e achar que o obelisco de Ipanema era até bonito);
25 - Ter plena consciência de que baiano faz muqueca e de que tem mais o que se comer no Rio;
26 - Passar o Ano Novo na praia de Copacabana, enfrentar o caos do trânsito (pior do que do Jardim Botânico, do Parque Lage etc), ficar com torcicolo e dizer "que bonito, valeu pela experiência, mas ano que vem eu vejo de casa mesmo...";
27 - Ir à Colombo no Centro e lembrar que tinha 20 anos que você não ia lá;
28 - Achar que Chácara do Céu é apenas uma referência em um funk antigo da década de 90;
29 - Pensar na carne de sol de Santa Teresa., mas lembrar que o bonde caiu e que você não quer subir de van;
30 - Ir até a Glória e ver bem de longe a Igreja de Nossa Senhora;
31 - Assistir ao pôr do Sol na praia de Ipanema, aplaudir e depois se achar muito carioca, muito privilegiado, mas enfrentar um dobrado pra voltar pra casa.

Ah... E tem a 32a.
Não apoiar o César Maia!

OBS: Essa é uma resposta a este post aqui...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pais, tapas, filhos e beijos

Num domingo, há duas semanas, resolvi preencher tempo com filmes que havia comprado e não (re)visto, frutos daquelas promoções que a gente teima em aproveitar, mesmo sem ter tempo. Peguei dois filmes que, coincidência ou não, estavam juntos na prateleira de casa. E vi sem perceber de início o quanto os dois se completavam.

O Campeão
 (The Champ - 1979)

Billy Flynn (Jon Voight) é um ex-boxeador que abandonou o esporte por problemas pessoais e passou a adestrar cavalos. Ele cuida do filho, T. J. (Rick Schroder), sem a ajuda da mãe que, para todos os efeitos, está morta. Para esquecer os fracassos da vida, Billy vive de boemia e jogatina. Viciado e desacreditado, o adestrador chega a roubar o filho para jogar. Mas o filho não se importa. Para T. J., Billy será sempre um campeão. A trama ganha força com a entrada de Annie (Faye Dunaway), uma misteriosa ricaça que conhece o garoto em uma corrida de cavalos.

Embora o filme de Franco Zeffirelli mostre a trajetória de um homem que tenta superar os fracassos, fica claro que Billy não é um ex-boxeador, um adestrador ou um viciado em jogos. Billy é um pai. Essa é a maior força do filme e é disso que ele trata. A maior frustração de Billy é não ser mais o campeão, como o filho insiste em chamá-lo. Não corresponder à imagem que T. J. faz dele é o que o move, para o bem e para o mal. E quando Annie aparece na história, Billy ganha o estímulo necessário para mostrar ao mundo que continua sendo um campeão.

Na primeira vez que vi este filme, eu era mais novo que o filho do Campeão. Lembro de ter chorado como uma criança. Na época, eu já era órfão de pai e sempre imaginei que a reação tinha a ver com o tema. Mas revi o filme e voltei a chorar. Não teve como. O melodrama escorre por cenas capazes de fazer o mais duro dos machões soluçar como uma menina. E boa parte do mérito vai para Rick Schroder, um ator mirim como poucos. Ele não é do tipo que dança e canta. Embora o lado da ingenuidade do personagem pese, é na interpretação que o menino ganha o filme.

Dessa vez, a cena que mais chamou a atenção não foi uma das que lembrava, das que faziam chorar. A que mais marcou foi uma cena forte em que o pai tenta fazer o filho deixar de idolatrá-lo. Ele precisa fazer com que o filho o deixe e, numa discussão, dá um tapa no garoto. O tapa é dado também no espectador, que sente a dor de ambos. Em época de politicamente correto e de educação sem palmada, o tapa fica até mais agressivo.

Depois de algumas lágrimas, fui ao segundo filme.

Ladrões de Bicicleta
(Ladri di Biciclette – 1948)

Na Itália do pós-guerra, o desemprego é grande e o trabalhador tem dificuldades para sustentar a família. Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) é um desses casos. Um posto para colar cartazes de cinema é oferecido, mas, para tal, o interessado precisa ter uma bicicleta. Antônio penhorou a sua e precisa recuperá-la. Para ajudar o marido, Maria (Lianella Carell) vende os lençóis da casa para conseguir dinheiro. No primeiro dia de trabalho, Antônio está distraído quando um jovem rouba a tão necessária bicicleta. A partir daí, com a ajuda do filho Bruno (Enzo Staiola), Antônio parte atrás do ladrão, em uma busca por diversos pontos da cidade de Roma.

Assim como o de Zeffirelli, o filme neo-realista de Victorio De Sica também narra a trajetória de um homem em busca da dignidade. Embora a intenção fosse mostrar a realidade e discutir o drama de uma geração, criando um retrato da Itália do fim da década, a história enquadra a jornada de Antônio também pelo aspecto da obrigação (naquele momento, essencialmente masculina) de prosperar e cumprir sua função social de provedor.

Os pontos de interseção entre os dois filmes vieram através de um novo tapa. Bruno acompanha Antônio em toda a trajetória. Sempre ao lado, tentando andar no ritmo do passo do pai, tentando ser útil. Em determinado momento, cansado, Bruno deixa de obedecer ao pai e Antônio, também num momento de extrema irritação, desconta no filho. A primeira reação que tive foi: “Eita, quanto tapa na cara!” Depois, foi inevitável a comparação entre os filmes e a observação maior dos mesmos pontos no qual o primeiro se destacara.

Antes do tapa, Enzo Staiola era o menino que dava um pouco mais de vida à trajetória do protagonista. Depois, o garoto foi roubando a cena, aos poucos. Talvez, por minha maior percepção. Em todo caso, vi ali outro ator mirim digno de prêmio da categoria. E a partir dali comecei a focar mais no filme pelo viés da paternidade. Antônio leva o filho como ajudante, mas também para plantar a semente da responsabilidade e da abnegação. Mesmo quando erra o passo e toma as atitudes erradas, Antônio é exemplo para Bruno. Mesmo quando Bruno tem mais consciência do que o pai. Mesmo quando Bruno precisa ser o apoio para o pai não desabar.

Fiquei com as duas histórias na cabeça. Com a proximidade do dia dos pais, foi inevitável lembrar essa coincidência e pensar na reflexão que os filmes, em conjunto, trouxeram. Não sou pai e perdi o meu muito cedo, mas me atrevo a afirmar que a moral de todas as histórias entre pais e filhos, com ou sem tapas e beijos, é... Na vitória ou no fracasso, na alegria ou na vergonha, o que um filho mais quer é poder andar ao lado do pai e segurar a mão dele. E, mesmo que falho, imperfeito e desvirtuado, poder chamá-lo de campeão.