segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ar Mar Ação...

Bafos, cascatas e armações!
A voz de Nara Gil surgia do aparelho de TV e as noites de sexta-feira melhoravam...
Uma ou duas vezes por mês, a imaginação corria solta na cabeça do menino de classe média, que saía pela janela do prédio em Botafogo e mergulhava sem paraquedas.
De asa-delta, a plainar...



Lembro da noite em que vi a primeira aventura da turma da Armação Ilimitada.
Esse piloto... Em episódio especial da Sexta Super.

Como parte da geração oitentista, vivenciei cada momento de cada episódio posterior...
Cada investida e ideia genial (de olho na gata e na grana) do malandro Lula.
Cada cantada, meditação e golpe de caratê do inconstante Juba.
Cada citação, reportagem e encrenca da multifacetada Zelda Scotti.
Cada descoberta, piada e paquera do pequeno (pra eles) Bacana.
Cada sanduíche, loucura e conselho da loba Ronalda Cristina.
Cada participação e transformação "chocante" do Chefe.
E cada narração e música apresentada pelo(a) Black Boy.

Na época, como já tínhamos um vídeo cassete, gravava os episódios e revia dezenas de vezes, com ou sem a minha irmã.
Como as fitas eram poucas, a gente acabava desgravando com o tempo...
E fui perdendo-os aos poucos.

Após a exibição normal da série, lembro que houve mais duas reprises...
Uma na própria Rede Globo, nos domingo de manhã. Na década de 90.
Depois, na década passada, no Multishow.

Há uns dois anos, eu comprei o box com DVDs.
Embora alguns episódios que foram marcantes estivessem na caixa, nem todos estavam lá... Mas revi apenas esses dez episódios, escolhidos pelo diretor Guel Arraes, com a memória trabalhando pra reviver os demais.



Só agora, que a série começou a ser reprisada no Canal Viva, resolvi correr atrás de torrents da série. Consegui baixar todos os episódios exibidos no Multishow (que não exibiu apenas o último ano da série) e rever muitos dos que lembrava.

Todos sabem...
A Armação era uma série com uma nova linguagem, um novo formato.
Uma proposta jovem... Não apenas em tema, mas em essência.
E que acabou se moldando com o tempo para o público que mais comprou a fórmula: as crianças.

Mas embora muitas mensagens fossem realmente para esse público, hoje vejo como muita informação não era compreendida. Metáforas, paródias ou simples deboches e citações, que iam muito além do que a infância podia alcançar.

Muitas vezes os autores faziam apenas a piada pela piada.
Mas se pensarmos num Brasil em plena abertura política, pré-Constituinte, recém-saído de uma ditadura e de uma censura ferrenha, não é de se estranhar que a liberdade de criação fosse estimulada.
Muito mais do que hoje em dia...

O que nos faz pensar...
Hoje, se houvesse a proposta de uma série em que uma jovem jornalista namorasse com dois surfistas ao mesmo tempo e que tudo fosse vivido sob o olhar de um menino de rua, adotado pelo grupo, certamente o juizado de menores cairia em cima. E, se houvesse série, tudo seria exibido depois das 23 horas, horário mais indicado para fugir da audiência infantil. Sem a força das crianças, a série não passaria do primeiro ano.

Não sei...
Muita coisa melhorou, é claro.
Muitas ferramentas e meios ajudam hoje o nosso cotidiano.
Mas vivemos distantes dos outros e da vida.
Vivemos um moralismo involuído.
Uma excesso de tato e, ao mesmo tempo, uma falta de aproximação.

Essas tramas encontradas não me levaram ao saudosismo, porque isso já nem me toca tanto. Esses episódios escondidos levaram-me à constatação de que muito daquela ideologia (que ali era meramente ficcional, mas que espelhava algo real e maior) se perdeu.

Não era inocência, pelo contrário.
Era sim uma permissividade... Mas uma permissividade sadia, repleta de simplicidade, que não combatia moral nem acreditava viver sem ela (as mensagens com fundo moral estavam lá, escancaradas e auto-ironizadas), mas que fazia questão de lembrar aos jovens e pequenos da importância de se viver com liberdade. Liberdade que começava a ser reconquistada e valorizada.
Liberdade de expressão, de criação, de opinião e, principalmente, de ir e vir...
De decidir o que se quer pra si.
De seguir ou não o padrão, o sistema e a convenção.

Tudo voltado para um mundo mais saudável, mais preservado, mais imaginativo, mais lúdico e essencialmente mais feliz.
A vida plena, como uma história ("...que poderia acontecer a qualquer um de vocês...") repleta de possibilidades, com armações e alegrias ilimitadas.

Enquanto o mundo rola, enquanto rola o som...

Um comentário:

Grégori Lisbôa disse...

Você lembra de um episódio em que toca a música Happy Xmas do John Lennon enquanto alguém está indo embora de casa? Provavelmente a Zelda?