domingo, 4 de julho de 2010

Muito além das chuteiras...

O Brasil não é Hexa.
A pergunta que me fiz esses dias foi... O que define o Brasil?

E além...
Quem são os brasileiros?
Para entender a pátria, é preciso entender o povo.



Brasileiro é aquele que não desiste nunca.
Não desiste nunca da ideia de ser o melhor... O melhor no futebol.
Hum... Na Fórmula 1, até que seria bom... (Mas brasileiro ainda é aquele que vive da lembrança do Senna.)
Se o Brasil for o melhor no vôlei, no basquete, no boxe, no tênis, na natação, na luta livre e seja lá o que vier, é um a mais. Mas ser o melhor no futebol é o Brasil confirmado como potência.
E assim vive o brasileiro...

Brasileiro se orgulha do Lula?
Tá maluco?... Claro que não.
Brasileiro se orgulha de ser melhor que o Lula.
Afinal, o Lula é burro, ignorante. É um presidente menor, que fala errado e faz parte do PT, um partido de ladrões.

Brasileiro se orgulha da cultura?
Em parte, mas nem sempre... Afinal, o Brasil só é visto como o país do samba e das mulatas. Um esteriótipo. E o Brasil tem o funk, o pagode, o axé. Os estilos que o brasileiro ouve, mas que são menores. Assim como o Lula. E o Brasil não tem teatro, não tem artes plásticas, tem um cinema fraco e só vê novela.

Brasileiro não se orgulha de estar "em desenvolvimento".
Bom mesmo é ser desenvolvido. Bom mesmo é a moeda valorizar e o brasileiro poder viajar para a Europa.

Brasileiro não gosta de brasileiro.
Afinal, todo brasileiro é mal educado, preguiçoso e limitado.

Ao fim da Copa, sempre surge a mesma reflexão...
Somos uma pátria de chuteiras. Uma pátria que só se orgulha das chuteiras.
O que é mais triste em época de Copa é ver o país vestir a camisa verde-e-amarela. Porque sabemos que a maioria veste o time, a seleção. O brasileiro não veste a pátria.

Não quero dizer aqui que brasileiro precisa engolir tudo...
Brasileiro não precisa ser o típico, com a bola no pé e o tamborim na mão.
Brasileiro pode gostar mais de basquete, pode ouvir só Rock N´Roll e odiar batucada.
Mas brasileiro pode torcer pelo Brasil.

Brasileiro pode ficar feliz e "vestir a camisa" quando souber, por exemplo, que uma coreógrafa brasileira dirigiu um grande espetáculo internacional usando ritmos nordestinos. Ficar feliz por uma brasileira ter tido projeção e ter levado um pouco da identidade do país. Mesmo que a música não seja agradável ao gosto do tal brasileiro. Brasileiro pode criticar o Lula, não achar que tudo seja a maravilha que é vendida. Mas brasileiro também pode acreditar que as coisas estão melhorando, seja por trabalho do Lula, do FHC ou simplesmente pela falha econômica do resto do mundo.

Brasileiro pode gostar de novela, criticar novela, sem achar que está falando de um entretenimento barato. Existe qualidade em tudo no mundo. Brasileiro pode se divertir. Não precisa aceitar o chulo, mas pode ouvir algum axé, pagode ou funk. Isso não vai deixar o brasileiro menos culto.

Brasileiro não precisa odiar a Argentina por causa de futebol. Não tem que diminuir ninguém. Nem engrandecer ninguém. Não precisa se sentir menor por ter sido colonizado. E brasileiro precisa entender que tentar ser cópia é que mostra o pensamento colonizado. Ter o direito de ser brasileiro é que traz a igualdade.



Nações são culturas. Em um mundo globalizado, podemos ser indivíduos, mais que brasileiros. Podemos ter traços e gostos do mundo. Mas também fico feliz se o mundo entender e perceber que sou brasileiro, não como sucrilhos de manhã, não moro em subúrbio com casas de dois andares, não gosto de scargot, tenho ancestrais de diversas partes do mundo, mas nasci aqui. Tenho profunda admiração por Deborah Colker, seja pelo trabalho ou pela empolgação que ela passa ao falar dele. Gosto de música ritmada e arranjada com instrumentos estranhos como zabumba, ganzá, timbau, berimbau, agogô e cuíca. Gosto de criticar as novelas atuais e achar que bom mesmo era Roque Santeiro, Que rei sou eu? e Vale tudo. Gosto de filme nacional, seja o ritmo frenético do Cidade de Deus, seja os roteiros do Jorge Furtado ou histórias que falam do meu país, como Boleiros, que é sobre... Futebol. Gosto de ver peças montadas por "Aderbals Freires Filhos", assistir "Andreás Beltrões" do lado de casa e descobrir que talentos vão muito além da TV. Gosto de relembrar o teatro infantil de Maria Clara Machado. Gosto de assistir textos de Nélson Rodrigues, Gianfrancesco, Plínio Marcos e outros, e discutir o Brasil, entendendo que ele é sim repleto de problemas sociais, históricos ou recentes, e que precisa de consciência para mudar. Torci pelo Lula em 1989, quando eu era criança e ele era o proletário que iria ganhar a presidência. Torci pro Lula depois e, embora não concorde com parte da política do Governo (nunca vou concordar ou estar plenamente satisfeito... e sei que isso é bom e necessário), torço para que os políticos que vierem sejam menos políticos e mais brasileiros. Não nacionalistas, mas que façam pelo Brasil. (Que façam pelo brasileiro e não pelo próprio bolso.) E gosto sim de bloco de Carnaval, marchinha, churrasco, feijoada, queijo de Minas, pão-de-queijo, açaí, guaraná, carne seca com aimpim...

"...Nossos curumins, nossos botequins, salve Mãe Oxum
Salve Deus Tupã, Chico Mendes, Zumbi, Sapaim, Raoni
Saci Pererê, Peixe com dendê, Carne com fubá, Aie-ie Babá,
Saravá sucuri, sarará, cerêre" (Apesar de cigano - Altay Veloso / Aladim)

É aquilo... Mais uma Copa. Mais uma reflexão.
E continuo querendo ver o Brasil não com orgulho, porque orgulho pode cegar... Mas com identidade. Um dia o Brasil será mais que a pátria de chuteiras.
Enquanto isso, farei minha parte para que a brasilidade não se perca.
Afinal, sou brasileiro... E não desisto nunca.

A futura identidade brasileira (ehehehe)

2 comentários:

Anna disse...

Detesto ter que concordam com vc, mas é por aí mesmo...
Adorei o texto!
É uma pena que um grupo(grande infelizmente) de brasileiros hipócritas e fracos acabem fazendo com que achemos que o Brasil se limita a pátria de chuteiras... Mais triste ainda é que os meios de comunicação reforçam isso o tempo todo e multiplicam cada vez mais os adeptos aos "pseudo patriotismo".
Não retirei minha linda bandeira da varanda nem mesmo com a derrota do Brasil em campo ...

Dany Braga disse...

lindo, lindo, lindo. Obviamente me emocionei ao ler. É tudo em que acredito. Vou passar o link para os amigos lerem! beijos,Dany