sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Uma verdade inconveniente

No meu atual trabalho, é oferecida aos funcionários, de vez em quando, a oportunidade de assistir a um filme durante um dia de trabalho. Para que os funcionários não percam duas horas de trabalho, ou uma hora de almoço e outra de trabalho, o filme é quebrado em duas partes, sendo exibidas em dois dias. Três filmes são sugeridos para votação.

Ainda não vou entrar no mérito deste tipo de ação dentro da empresa...
O que quero é falar do filme.
Desta vez, a disputa pela exibição ficou entre três documentários sobre as consequências do aquecimento global... E o vencedor foi 'Uma verdade inconveniente'.

O documentário, vencedor do Oscar 2007 e dirigido por Davis Guggenheim, é baseado nas palestras de Al Gore pelos EUA e pelo mundo, abordando a interferência nociva do homem no meio-ambiente e os efeitos dessa intervenção.

Não foi o filme que eu escolhi, mas fui assistir assim mesmo.
Ontem, vi a primeira parte... Hoje, verei a segunda.
E mesmo antes de ver o final, já quero escrever sobre ele.

Esse não é mais um assunto inédito. Não é uma informação nova. Estamos acostumados a ver e ouvir falar do aquecimento global e já encaramos como um problema real. Mas a questão está justamente aí... Não é informação nova e estamos acostumados.

O filme é extremamente didático, porque a palestra de Al Gore é didática. E acredito que, ao mesmo tempo que pra uns pareça 'chato', é exatamente este didatismo que causa comoção. Porque o filme não deixa de mostrar a tragédia climática pelo prático, por imagens reais dos efeitos, mas comprova para os muito acadêmicos que não se trata de brincadeira ou "viagem de hippie".

O filme e a palestra em si são explicitamente direcionados ao povo e às autoridades americanas. Embora mostre os efeitos mundiais, fica claro que o filme quer tocar o americano. Quer mexer com a maior potência mundial, lembrando que existem males e preocupações maiores que o terrorismo e que o mundo precisa de ações imediatas.

Propositalmente, o filme mostra imagens antigas de políticos considerando a causa ambientalista uma besteira. Lembrei que, no Brasil, também foi assim... O Partido Verde, que - a meu ver - ganha cada vez mais razão de existir, sempre foi considerado o partido dos doidões. A imagem era confundida com os macrobióticos, naturalistas, vegetarianos, maconheiros ou mais diretamente com a do Gabeira. E nunca foi levado muito a sério...

Ontem, vivi mais um momento de reflexão profunda durante o filme.
E, curiosamente, o incômodo maior veio com a sessão em si.
Agora sim, voltando à atividade, não precisa dizer que o momento do cinema é sinônimo na empresa de trocar trabalho por lazer. São duas sessões diárias, que acontecem no horário do almoço de cada turno, dividindo os funcionários. Eu trabalho na parte da tarde/noite e, por isso, o meu horário é o mais vazio. Mas como eles sempre oferecem um lanchinho, muita gente entra e sai do auditório para comer.

É engraçado como as coisas ficam claras...
Foi vendo aquele entra e sai de pessoas que tive a real noção do filme de Al Gore. E da missão difícil que ele tomou pra si.

A maioria das pessoas se assusta com as imagens dos slides, com os dados dos slides, mas fazer com que elas deixem suas vidas de lado, seus desejos, anseios, sonhos, além de sua vontade de matar trabalho ou comer biscoito e beber suco de graça, ao ponto de se engajar na causa, é quase impossível.

O filme mexeu comigo de uma forma bem pessimista.
Por mais que vejamos solidariedade em tragédias como a da região serrana do Rio, sei que a ação é pautada mais pelo sentido de não se sentir desumano do que por uma preocupação real. Ou, se é preocupação, é mais pela proporção da tragédia. Mas estamos acostumados com o deixar rolar... Com o "não posso fazer muita coisa". E vamos nos deixando levar. Daqui a algum tempo, se pedras rolarem em outro canto do Brasil, com um número de vítimas menor, vamos ver menos gente se mexendo pra ajudar. Afinal, a tragédia não é tão grande assim.

Outro dos pontos altos do filme é mostrar o crescimento da população nos últimos 50 anos. A Terra não estava esperando por isso... Não temos como sustentar tanta gente. Nessse momento pensei mais uma vez em toda política pública ausente nos quatro cantos do mundo. Toda falta de controle. No Homem querendo crescer, expandir, descobrir, explorar, criar e, principalmente, procriar, sem controlar seus atos. A nossa liberdade e o nosso direito de fazer o que quiser indo muito além da liberdade do alheio, do que está em volta. A nossa. O meu. O Eu.

Um dia, ouvimos dizer que o ser humano é o vírus da Terra. Porque destrói e cresce exponencialmente. Hoje, temos certeza disso. O mundo está doente pelo descaso e o egoísmo do ser humano. Como toda ação gera uma reação, temos agora a forma como a Natureza encontrou (e é explicada no filme) para se curar desse mal. Ao ver tantos sinais e ver tanta gente ignorando esses sinais, só um sentimento pode existir: que se dane o Homem. Venha Sol, pode queimar. Venha chuva, pode afogar. Venha mar, pode inundar. Venha neve, pode congelar. Venha vento, pode destruir. E quem não for afetado, que continue comendo de graça, negando a informação, achando exagero, até a próxima estação.

O último que se salvar, apague a luz, por favor.
Afinal, energia é caro e a conta é alta no fim do mês.

4 comentários:

Anna Cecilia disse...

Odeio ter que elogiar vc, mas adorei o texto. Talvez tenha sido o que mais gostei até hj!

Bom era bem evidente que o filme ia mexer com vc de um lado pessimista né... afinal vc é o Rabugento!
Parabéns ai...

Laís Gomes disse...

Excelente texto Alan, parabéns!
Bjs

Ah, tira só esse negócio de confirmar palavras q é muito chato e me faz perder o tesão ao comentar rs

Alan DB disse...

A propósito... Agora entendi o esquema. Era pro funcionário ir pro filme antes ou depois do trabalho. ehehehe claro que não dá certo.

"O Rio de Janeiro do meu tempo" disse...

Não tinha lidi esse pq tinha ficado com preguiça rsrsrsrs mas muito bom!